segunda-feira, 26 de maio de 2008

Últimos tempos

Nasci no dia 21 de abril de 1945.
Morava com meus pais e meus irmãos - dois homens e uma mulher - em uma cidade pequena do interior.
Não tínhamos muito conforto, mas nunca nos faltou nada, nosso quintal era repleto de árvores com frutas e legumes que tínhamos à vontade durante as quatro estações do ano.
Meu pai insistia que eu seguisse a carreira militar, mas preferi seguir outro rumo e fui para a cidade grande tentar a sorte.
No começo foi muito difícil, não arrumei emprego e passei muita necessidade, passei fome e cheguei a dormir na rua.
Um tempo depois as coisas começaram a melhorar um pouco. Arrumei um emprego como faxineiro em uma escola da cidade, e a partir desse momento comecei a mandar um pouco de dinheiro para meus pais e meus irmãos no campo.
Foi então que conheci Josefina, professora da escola onde eu trabalhava, linda, me apaixonei logo. No começo ela não me dava muita conversa, mas insisti e ela acabou aceitando me namorar.
Namoramos por um ano e decidimos nos casar. Eu me sentia o homem mais feliz do mundo.
As coisas estavam indo muito bem, até que um dia a escola em que Josefina e eu trabalhávamos fechou.
Perdemos nossos empregos.
Um mês depois Josefina me deu a notícia de que esperava um filho nosso e perguntou se eu queria que ela provocasse um aborto.
Eu respondi que não.
O tempo passava e eu não conseguia arumar emprego, a barriga de Josefina crescia e meu peito apertava. Pela primeira vez eu estava com medo.
As ruas estavam sendo tomadas por manifestações contra a ditadura, e as forças armadas eram cruéis com quem fizesse qualquer tipo de manisfetação desse tipo.
Um tempo depois arrumei um emprego como ajudante de obra, onde o salário mal dava para alimentar meu filho tinha acabado de nascer.
Eu ainda gastava grande parte desse pequeno salário com os vicíos que passei a ter, as bebidas principalmente.
Conheci a cerveja, a cachaça, a maconha e as brigas com Josefina, que não aguentava mais aquela situação e não admitia que eu me entregasse daquela forma aos vícios e não desse comida para minha família.
Eu não tinha mais notícias de meus pais ou meus irmãos.
Logo depois Josefina descobriu que estava grávida novamente. Tive uma filha.
Lembro do dia em que cheguei em casa, bêbado como sempre, e vi Josefina com meus dois filhos no colo, um em cada braço, eles não tinham mais força nem mesmo para chorar tamanha a fome que sentiam.
Josefina me viu e disse:
-Você é um vagabundo, fracassado, vai deixar seus filhos morrerem de fome.
Fiquei parado, perplexo, não acreditava no que estava vivendo.
Através de uns amigos conheci um lugar onde as pessoas se reuniam para planejar ataques contra a polícia. Era o partido.
Eles me deram apoio e as coisas começaram a melhorar.
Arrumei um bom emprego, dei comida à minha família, estava tudo muito bem. Até o dia em que entraram em minha casa.
Bateram em Josefina e a estupraram, levaram meus filhos e me prenderam.
Eles não tinham o direito de fazer aquilo. Eram alguns de nós mesmos.
Eles disseram que eu deveria morrer por ser contra a ordem da nação, mas eu só queria liberdade.
Lembrei de meus pais e meus irmãos, de Josefina, de meus filhos, meus filhinhos.
Foi a última lembrança que eu tive.

Um comentário:

brócolis cru disse...

pelo menos Josefina era gostosa, né?